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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

7 de novembro de 2009, a que não se diluíssem em meu esquecimento, passei a escrever sobre filmes, e começou assim, por Dançando no Escuro, de Lars von Trier :




Apesar de tê-lo visto com uma amiga, dividindo minha poltrona, compenetrei em ritmo e simplicidade de suas canções melancólicas, em notas intensas e distraídas de Bjork. A visão, tela, estória, música, mente, um redemoinho de emoções disfarçadas por trás da raiva e dor, a razão, a mágica e realidade, como nas lindas canções que deslizam sobre a fábrica metalúrgica em trabalhos cansados ou por trilhos de trem a caminho crepuscular de casa, a visão turva e as cenas atordoadas de uma câmera trêmula.
À culpa de ter dado a luz, consciente de uma cegueira hereditária, Selma, interpretada por Bjork, recebe o filho ao fardo de uma vida beirando a pobreza , poupando suas economias para uma cirurgia que salvaria a visão da criança. A vida de Selma gira em torno do filho e da arte, a música e dança que a transcende por um universo mágico de cores e sons, o que a principio era o que a atrapalhava no trabalho, mas logo a perda da visão foi inevitável ao desemprego. Os salários de anos de trabalho já cobriam os custos da cirurgia, mas havia desaparecido a lata de dinheiro escondida atrás da tábua de passar roupa, e Selma bem sabia quem havia pegado. Para recuperá-lo, direciona-se a casa vizinha, amigos a quem gosta, mas de repente percebe-se em uma armadilha, em uma trama de traição e assassinato. O amigo que estava em crise financeira e iminente crise no casamento a roubou para não ser deixado por sua mulher, que não o aceitaria pobre. Torna-se irritante seus jogos emocionais em cima de uma mulher tão frágil, mas logo se revela um homem tão realmente vulnerável e apavorado, fraco, pedindo pela morte, que se confundem os pensamentos, não há culpados, e torna-se compreensível a percepção de Selma e forma com que lida a apunhalada recebida. Julgada e condenada à morte, Selma insiste em esconder a verdadeira história do assassinato, que tange o assunto da doença do filho, que se informada a ele poderia deixá-lo nervoso e atrapalhar no processo de cura. E mantendo o segredo prometido ao amigo, a qual matou em desespero e pedido por ele, que não queria revelar sua falência. Ser condenada a morte por guardar o segredo de um homem que a roubou e que estava morto pode ser intolerável ao público, mas, além disso, havia a necessidade de silenciar a doença do filho, pra não lhe atrapalhar. A vida de Selma estava garantida, era a visão de seu filho, o resto ela não fazia questão, a naturalidade e mágica de sua melodia e ser cinema era seu modo de existir, não uma profissão. Selma é enforcada em uma tração surda, enquanto canta chorosa. Diz que assistia até a penúltima música dos musicais quando criança, pra que eternizassem, e assim acaba esse lindo e triste filme de Lars Von Trier, uma penúltima canção interrompida pela morte que deu a vida dentro de mim de um ser musica, dança e cinema, uma tristeza de textura macia que acoberta ao frio que não passa, as lágrimas que não secam.

Um comentário:

  1. I´ve seen it all
    There´s no more to see.
    Wie, adorei especialmente essa resenha. sério, não há palavras, é difícil escrever para um grande escritor. estou lendo seu blog com calma,li algumas coisas e estou gostando. (:

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